
Inclusão não é um gesto isolado. É um processo contínuo, cotidiano e coletivo.
Com essa premissa, a REMS realizou a formação Autismo no esporte para a mudança social, conduzida por Paula Ayub, psicóloga clínica e fundadora do Centro de Convivência Movimento, que reuniu organizações da rede para aprofundar seus conhecimentos sobre autismo e qualificar práticas pedagógicas no esporte.
A formação, exclusiva para membros e associados, trouxe reflexões essenciais para quem atua com atividades físicas, projetos sociais, mobilizações comunitárias ou atendimento direto a crianças, adolescentes e adultos no espectro autista. Mesmo para quem não acompanhou as aulas, os aprendizados ajudam a compreender como o esporte pode se tornar um espaço mais cada vez mais seguro, sensível e acolhedor. Confira!
Por que falar de autismo no esporte?
O esporte é um dos ambientes mais potentes para o desenvolvimento humano. Ele reúne movimento, convivência, comunicação, vínculo e expressão, elementos fundamentais também para pessoas autistas.
O principal desafio não é ensinar alguém do espectro a praticar esporte, mas criar condições reais de participação. Isso exige: compreender características individuais, respeitar ritmos, reduzir barreiras sensoriais, adaptar instruções e estabelecer relações baseadas em previsibilidade, cuidado e escuta.
Incluir não é apenas permitir presença física. É garantir participação com qualidade.
Entendendo o espectro no contexto esportivo
Autismo é um espectro, e não existe uma única forma de ser autista. Algumas pessoas têm autonomia em várias áreas, mas enfrentam desafios sensoriais; outras precisam de apoio na comunicação; outras apresentam facilidade motora; algumas têm dificuldades de coordenação. Para quem está na ponta, isso significa que não há uma estratégia universal.
A formação reforçou um conjunto de princípios que podem orientar a prática: compreender cada pessoa antes de compreender a atividade, observar comportamentos sem julgamento, adaptar o ambiente antes do participante, organizar rotinas que diminuem ansiedade, evitar estímulos excessivos e ajustar linguagem, tempo e forma de comunicação.
O objetivo não é mudar toda a metodologia, mas criar condições reais de pertencimento.
Autismo, comportamento e comunicação: o que muda no esporte
Pessoas autistas podem vivenciar o esporte a partir de experiências sensoriais intensificadas ou reduzidas. Ginásios ruidosos, luz forte, superfícies ásperas ou movimentos bruscos podem gerar desconforto, agitação ou retraimento.
Também é importante considerar que a comunicação pode ocorrer de formas variadas, combinando linguagem verbal, visual ou alternativa. No ambiente esportivo, a organização da comunicação é fundamental para ampliar segurança e reduzir ansiedade.
Comportamentos repetitivos, pausas inesperadas ou dificuldade em transições não devem ser interpretados como desobediência, mas como sinais de sobrecarga ou necessidade de apoio.
O papel do educador é compreender o que o comportamento comunica.
Práticas que podem fortalecer o trabalho das organizações
Para apoiar educadores e organizações que não participaram da formação, reunimos orientações que podem ser aplicadas no dia a dia:
- Incluir começa pela forma como o ambiente é organizado.
- Entradas, saídas, regras e tempos de transição precisam ser claros para reduzir ansiedade.
- Ambientes com excesso de ruído, desorganização ou estímulos sensoriais intensos podem se tornar barreiras à participação.
- Observar sem pressa e compreender o que cada comportamento expresso é essencial para construir relações de confiança.
- A adoção de rotinas visuais, combinados simples, explicações passo a passo e instruções objetivas melhora o entendimento e apoia a participação.
- Respeitar o tempo de cada pessoa, permitindo pausas sempre que necessário, também é um elemento central da inclusão.
Essas práticas dependem menos de estrutura física e mais de intencionalidade e atenção cotidiana.
Inclusão começa na equipe
A formação reforçou que não existe inclusão verdadeira sem uma equipe preparada. Isso envolve formação continuada, alinhamento entre educadores e coordenação, abertura para adaptar planejamentos e diálogo constante com famílias e equipes técnicas.
A inclusão não é responsabilidade de uma única pessoa, mas de todo o time envolvido no trabalho.
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